sábado, 7 de julho de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - O PREÇO DO AMANHÃ

A expressão tempo é dinheiro ganhou uma boa representação cinematográfica pelas mãos do diretor e roteirista Andrew Niccol. A dica neste sábado é ver a sua visão de futuro em O Preço do Amanhã (2011), uma eficiente mistura de ação e suspense que de quebra nos faz refletir sobre como serão as coisas daqui alguns anos. Apesar da embalagem high tech, a produção se baseia em uma antiga ambição humana: a imortalidade ou até mesmo a juventude eterna. Já está em pauta entre pesquisadores, sociólogos, cientistas, políticos, enfim em praticamente todos os setores da sociedade como ficará o mundo com uma superpopulação, afinal estamos vivendo em uma época em que os idosos estão vivendo mais e muitas doenças foram erradicadas graças aos esforços dos campos medicinais. Com menos mortes e muitos nascimentos diariamente, existe a preocupação se haverá possibilidades de oferecer condições de vida dignas a tantas pessoas. Neste longa tais assuntos podem ser pinçados pelo espectador para serem pensados mais tarde, mas no momento em que se está assistindo o grande tema destacado é a ganância e o sentimento de superioridade.  

A trama se passa em uma época futura, não determinada, quando as pessoas são modificadas geneticamente para viverem até os 25 anos. Isso acontece porque pesquisadores conseguiram bloquear o gene do envelhecimento. Depois do limite de idade estabelecido, todos podem permanecer com a aparência jovem para sempre o quanto desejarem, isso desde que cada um pague por esse tempo de vida extra. Assim, as relações capitalistas deixam de se basear em dinheiro físico e as horas, dias, semanas, anos e até mesmo os segundos, qualquer fração de tempo torna-se moeda de troca. Nem uma carteira é necessária ser carregada. Um relógio subcutâneo em um dos antebraços com contagem regressiva é utilizado para uma leitura digital a cada compra ou serviço adquirido, além de descontar cada dia vivido. O problema é que apesar dos avanços as sociedades ainda se dividem entre pobres e ricos. Assim dependendo da classe social um indivíduo poderia ter uma longa expectativa de vida ou contar os dias que lhe restam na Terra quando se aproximasse, teoricamente, de seu derradeiro aniversário. É como se fosse uma alusão a situação contemporânea. Quem tem dinheiro tem melhores condições de vida e consequentemente vive mais. Quem não é abastado, bem, os jornais diariamente tratam de revelar a triste realidade.


É neste mundo em que a imortalidade e juventude eterna são os grandes objetivos das pessoas que vive Will Salas (Justin Timberlake), um rapaz que por suas condições profissionais e familiares vive ao máximo cada dia, afinal está na lista dos que podem contar sem auxílio de calculadora o tempo que lhe resta. Porém, sua sorte vai mudar completamente, mas também lhe trazer problemas. Após uma briga em um bar, ele salva a vida de um desconhecido, Henry Hamilton (Matt Boomer), que está sendo perseguido por ter praticamente um século de vida ativo em seu relógio. Cansado da pressão que sofre pela riqueza que carrega, o rapaz abdica da vida e entrega seu tempo para Will, este que se choca ao descobrir como a sociedade realmente funciona e com a perda da mãe Rachel (Olivia Wilde). Assim ele resolve declarar guerra ao sistema e acaba ganhando a companhia involuntária de Sylvia (Amanda Seyfried), uma moça que se identifica com os pensamentos dele mesmo fazendo parte do time dos magnatas. A aproximação entre eles não agrada o pai da jovem, Weis (Vincent Kartheiser), e eles passam a ser caçados pelo agente Raymond Leon (Cillian Murphy) que já estranhava os sucessivos gastos de Will em uma travessia como se quisesse fugir. As dúvidas sobre sua idoneidade aumentam quando o corpo de Hamilton é encontrado. Vendo por esse viés, o dos controles de gastos, encontramos mais uma analogia com os tempos atuais. Faturas de cartão de crédito, contas rotineiras e o imposto de renda são ferramentas utilizadas pelos poderosos para controlar a vida das pessoas e evitar condutas ilícitas, pena que são os próprios ricos que mais cometem fraudes e os que mais se safam da punição. Os pobres sempre são os bodes expiatórios que devem sofrer as conseqüências e servir de exemplo. No futuro idealizado por Niccol os princípios são os mesmos. O cineasta tem bastante intimidade com a crítica aos chamados avanços tecnológicos e científicos. É dele a ficção cult Gattaca – A Experiência Genética, foi o primeiro a mostrar o fascínio dos realities shows no cinema em O Show de Truman e o próprio criou a figura de uma pop star imaginária em S1m0ne, muito antes de shows holográficos se tornarem um sonho realizado. 
 
Muito se fala sobre a divisão do longa em dois atos que aparentemente são perfeitos, mas que quando bem analisados revelam-se distintos. A primeira parte é a mais elogiada, pois é quando somos apresentados à curiosa e escravista atmosfera futurista. As pessoas são escravas do tempo e da vaidade. Quem está com a vida por um fio precisa correr para conquistar seus objetivos e quem não precisa passa seu tempo ocioso tentando ficar ainda mais rico ou em outras palavras viver mais. A premissa coloca em destaque temas que permitem reflexões importantes, inclusive para mudarmos conceitos atuais para não chegarmos a ter um futuro que é ao mesmo tempo libertário e claustrofóbico. Embora com vários caminhos interessantes a serem trabalhados, Niccol opta pelo mais curto e óbvio. O projeto visa atender aos apelos de um público ávido por adrenalina, portanto o corre-corre típico dos blockbusters americanos toma conta do segundo ato sobrepondo-se a exploração de um mundo novo e de certa forma surreal ou apocalíptico. É nessa trilha para a conclusão que a produção apresenta algumas falhas de continuidade e até situações pouco prováveis, mas quem se deixou encantar pela originalidade inicial não deve se aborrecer com o restante do trabalho, afinal ele cumpre bem o que promete: entreter do início ao fim. E olha que faz isso com qualidade e capricho. Poucos filmes que se arriscam a traçar um panorama sobre o futuro da humanidade conseguem escapar do rótulo trash ou evitar os efeitos especiais forçados.


É interessante também observar as diferenças nas formas do aproveitamento do andar dos relógios. Nos guetos a população faz tudo com mais agilidade e vive literalmente cada minuto como se fosse o último enquanto os ricos aproveitam a sua pretensa existência eterna de modo ocioso e com o medo de se exporem, já que um acidente poderia encurtar ou interromper tal dádiva. É justamente nesses contrapontos que estão as bases do enredo que o tornam tão fascinante a ponto de não percebemos que a premissa do protagonista é uma variação do conto de Robin Hood, roubar dos ricos para dar aos pobres. Ele quer lutar pela igualdade e a quebra da supremacia, tal qual seu pai tentou um dia, ou melhor, até seu último segundo de vida. É essa mágoa do sentimento de impotência que faz com que Will arquitete seu plano. Timberlake defende bem seu personagem, assim como Amanda, mas ambos não soltam a mínima faísca para nos fazer acreditar em um forçado clima romântico. Para variar, quem se destaca no elenco é Murphy que geralmente rouba a cena em todos os seus trabalhos, muito por causa de seu olhar naturalmente maquiavélico que lhe rende vários convites para interpretar vilões. Em suma, O Preço do Amanhã é uma opção perfeita para curtir nas férias, apresentando um visual arrojado e enigmático e com uma narrativa que diverte apoiando-se principalmente em clichês em sua reta final. Todavia, vale a pena tentar refletir sobre as mensagens subliminares deixadas. Entretenimento também pode alimentar o cérebro, ainda que em pouca quantidade como neste caso.

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