segunda-feira, 16 de julho de 2012

FESTIVAL DE FÉRIAS - OS DESCENDENTES

Todos os anos ao menos uma produção pequena e que possivelmente passaria pelos cinemas em brancas nuvens é acolhida pela alta temporada das premiações e ganha um gás em sua campanha de divulgação. Ter George Clooney como protagonista é um bônus a mais em Os Descendentes (2011), mas o que chama a atenção em seus créditos é o nome Alexander Payne, diretor e roteirista que ainda pode vir a ser conhecido como uma grife cinematográfica tal qual Woody Allen ou os irmãos Coen. Este profissional teve uma ascensão rápida na carreira, embora em pouco mais de uma década tenha se envolvido em apenas quatro projetos. Para ele vale mais qualidade que quantidade. Seu nome ganhou a atenção dos holofotes timidamente com a pequena projeção que tiveram A Eleição e As Confissões de Schmidt, mas ganhou brilho quando Sideways – Entre Umas e Outras conquistou indicações importantes para o Oscar, embora muitos considerem que os críticos ficaram embriagados com a tal viagem etílica proporcionada pelo cineasta. Na realidade, enquanto muitos quebram a cabeça buscando a fama através do emprego cada vez maior de tecnologias nas filmagens, Payne segue o caminho inverso. Minimalista e emotivo, histórias e personagens são suas matérias-primas e talvez esses sejam também os empecilhos de seus projetos que acabam encontrando injustamente resistência por certa parte do público que ainda liga a idéia de prêmios apenas as superproduções.
Após cerca de sete anos da superexposição de sua pequena obra de arte sobre os altos e baixos da vida em meio a um cálice de vinho e outro, Payne mais uma vez se mostra interessado em refletir sobre os problemas de pessoas comuns e consegue realizar um drama que não nos faz chorar ou nos emocionar ao extremo, pelo contrário, até nos faz rir em alguns momentos. É difícil contar uma história extremamente crível e que flerta com dois gêneros opostos, mas ambos fazem parte da vida de qualquer ser humano e este criativo profissional consegue captar com maestria pequenos detalhes do cotidiano de seus personagens que a identificação com o público acaba sendo inevitável. Para turbinar ainda mais a carreira de seu longa, o cineasta ainda conseguiu recrutar Clooney para protagonizar seu trabalho, um ator cada vez mais em evidência em Hollywood que tinha tudo para viver confortavelmente de papéis tolos em produções repetitivas, mas ele não quis para si o título de mocinho honorário das comédias românticas e está sempre em busca de desafios. E talvez não exista prova de fogo maior para um ator que simplesmente interpretar com perfeição um indivíduo comum, o que justifica os elogios e prêmios que recebeu.
 

Clooney interpreta o advogado Matt King, um homem que sempre se dedicou muito ao trabalho, vive no Havaí, é casado há muitos anos, tem duas filhas e possui uma conta bancária generosa, enfim a vida perfeita que qualquer um sonharia. Errado! Quando sua esposa Elizabeth (Patricia Hastie) sofre um grave acidente e fica em coma, King começa a ver que não sabia de tudo que se passava em seu próprio lar. Ele se dá conta que se dedicava demais ao trabalho e pouco à família, o que acabou o afastando das filhas Scottie (Amara Miller), a caçula que não anda se comportando bem na escola, e Alexandra (Shailene Woodley), a mais velha que recusa qualquer gesto de carinho ou preocupação do pai e ele logo descobre o porquê dessa repulsa e da briga entre ela e a mãe que já durava alguns meses. A garota sabia que ela tinha um amante. Transtornado por saber que Elizabeth desejava o divórcio e que agora suas filhas dependiam unicamente do pai, King resolve levar a vida adiante de forma digna, assim ele decide descobrir quem era seu rival ao mesmo tempo em que precisa lidar com as negociações envolvendo um terreno herdado de seus antepassados, uma tarefa que acaba o aproximando de seus primos que estão de olho no que podem faturar. O entrecho sobre a venda das terras justifica o título deste trabalho, mas também pode fazer uma alusão ao que King quer deixar para suas filhas, riquezas materiais ou emocionais? Nessa jornada para ajeitar sua vida, este homem terá a oportunidade de reavaliar seu passado e repensar seu futuro a tempo de reconquistar o amor e a confiança de suas meninas.
Adaptado do livro homônimo escrito por Kaui Hart Hemmings, Payne contou com a colaboração de Nat Faxon e Jim Rash para construir um roteiro simples e eficiente, seguindo a tradição dos projetos independentes que sempre surgem como as grandes apostas quando os enredos são julgados. Não é a toa que papou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Mesmo sem contar com cenas avassaladoras ou reviravoltas inacreditáveis, o longa cativa o espectador da forma mais honesta possível apostando em uma narrativa mais tradicional que encontra apoio na suavidade para expor até mesmo os pontos mais críticos da história, como a questão da traição ou do conflito entre mãe e filha. O grande ponto de destaque é observar como os personagens vão se adaptando a suas novas realidades de maneira natural e crível. King, por exemplo, sofre ao saber que foi traído, mas não pensa em se vingar da esposa devido seu estado de saúde delicado. A solução então seria no ápice da raiva sair por aí quebrando tudo que se vê pela frente? Não. O personagem vai pouco a pouco se acostumando a lidar com seus problemas e anseios, ou seja, evoluindo como ser humano. Assim como o protagonista, todos os demais personagens carregam algum conflito ou características que os aproximam de pessoas de verdade e não é de se estranhar o interesse e a intimidade que eles geram nas platéias. Além de deixar os estereótipos de lado, é interessante observar que nesta produção somos surpreendidos não por um grande momento nos minutos finais, mas ao longo de toda a narrativa pequenos detalhes como uma troca de olhares ou um diálogo tratam de nos comunicar que a compreensão entre as pessoas se estabeleceu, como no caso de Alexandra que teimava em dizer que era diferente da mãe e a enfrentava, mas que precisou vê-la quase sem vida em cima de uma cama para repensar a relação que teve com ela.
 

Para quem se prende muito a idéia de que indicações a prêmios é sinônimo de filme excepcional e com qualidades que vão muito além da nossa imaginação, certamente se decepcionará com este filme. Sim, talvez os críticos de cinema tenham exagerado nos elogios e colocado a produção em um patamar acima do que realmente mereça, mas pensando bem devemos encarar esse positivismo como algo bom. Em tempos em que imagens e sons de tirar o fôlego dominam o mercado cinematográfico (entenda-se Hollywood), é louvável que trabalhos menores sejam reconhecidos pelos esforços de seus realizadores em tentar fazer uma produção diferenciada e contando com os elementos mais básicos para se fazer cinema. Emoção, talento e história boa são indispensáveis, mas Payne vai além em seu minimalismo e não se deixa levar nem mesmo pelas belas paisagens havaianas, optando por apresentar a região por uma ótica mais urbana e pouco conhecida, rendendo-se aos clichês visuais somente no final. A primeira vista pode parecer que Os Descendentes é mais um daqueles projetos cabeça que são feitos para poucos apreciarem, mas não se engane. De fácil digestão e compreensão, a produção, no fundo, é apenas uma forma menos piegas de entregar ao público mais um filme edificante daqueles que nos ajudam em certos momentos da vida e que as vezes espantosamente parecem talhados para atender nossas expectativas. Popularmente dizemos que é preciso errar para nos aperfeiçoarmos e é exatamente essa a mensagem do longa. Nos momentos de crise é que descobrimos quem realmente somos e nossas capacidades. Assista e reflita.

Um comentário:

Rafael W. disse...

Belo filme, leve, singelo em diversos momentos e engraçado em outros. George Clooney está ótimo.

http://avozdocinefilo.blogspot.com.br/

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