terça-feira, 8 de novembro de 2011

UM ELEFANTE INCOMODA MUITA GENTE



Hoje em dia, as humilhações vividas por qualquer um em seu ambiente escolar, profissional, familiar ou até mesmo na rua estão no foco dos noticiários e debates em diversas instituições. Qualquer deslize ou algo diferente em seu aspecto físico pode virar alvo de chacota. Inicialmente pode até ser divertida a brincadeira, mas conforme ela se torna constante e ofensiva pode se transformar em um ato criminoso, o popular bullying, palavra estrangeira empregada para denominar tais práticas provenientes de pessoas sem o mínimo de respeito ao seu semelhante. Porém, o problema não é uma novidade do mundo moderno. Sem o título americano, esse inconveniente já ocorre há muitos anos, talvez desde os primórdios do homem na Terra, e é um conflito muito explorado pelo cinema, enfocando na maioria das vezes o público infantil, faixa etária em que a discriminação acontece em proporções assustadoras. Tal tema foi utilizado com sucesso na animação Dumbo, uma produção de Walt Disney lançada em 1941 e baseada na obra homônima de Helen Aberson e Harold Perl. Este é o quarto longa de animação do estúdio e é considerado um dos maiores clássicos do gênero de todos os tempos, tanto é que foi relançado em cinemas e em home vídeo diversas vezes, já que seu conteúdo é universal e atemporal. É impossível encontrar alguém que pelo menos uma vez na vida não se sentiu excluído. A história gira em torno de um elefantinho chamado Jumbo Jr. que, além de nascer com orelhas desproporcionais ao seu corpo, tem a fama de ser desengonçado, por isso ele recebeu o apelido de Dumbo, palavra que em inglês significa estúpido. Vivendo desde pequeno em um circo, ele sempre foi ridicularizado pelos outros elefantes que levavam a sério a frase da canção "um elefante incomoda muita gente", mas tudo por pura maldade. Dumbo só contava com o amor e carinho de sua mãe até que ele faz amizade com o prestativo ratinho Timóteo que vai ajudá-lo a enfrentar esses problemas e mostrar seu valor. Essa amizade é uma clara paródia ao medo que esses grandes mamíferos têm de roedores.

Desde o início, a animação conquista o espectador pegando fundo em seu emocional. É cheia de simplicidade e ingenuidade a entrega dos bebês feitas pelas famosas cegonhas. Depois não há como não se entristecer ao ver a mãe do elefantinho sendo mantida em cativeiro após se revoltar contra as outras elefantas que ridicularizaram seu filhote ou ao vê-lo sozinho em seu alojamento. Ainda somos brindados, graças a uma bebedeira acidental por champagne, com uma belíssima sequência em que imagem e trilha sonora casam com perfeição ao melhor estilo Fantasia lançado um ano antes. Mas certamente uma das sequências mais lembradas é a que se inicia a partir da foto em destaque. Após inexplicavelmente acordar pendurado em galhos de uma árvore muito alta e ser arremessado por um bando de corvos, Dumbo descobre que suas enormes orelhas, até então motivo de vergonha, eram seu diferencial. Com elas poderia voar e assim é incentivado por Timóteo a voltar ao circo para participar de um número inédito: ele pularia de uma altura considerável e deveria cair em cima de uma cama elástica, porém, o espetáculo envolvia fogo, como se fosse um prédio em chamas, e o resultado final poderia ser catastrófico se o elefantinho não usasse sua coragem para evitar uma tragédia e ainda de quebra dar uma lição naqueles que um dia riram dele. Vencedor do prêmio de Melhor Design de Animação no Festival de Cannes e de Melhor Canção no Oscar, a animação foi lançada em pleno ápice da Segunda Guerra Mundial, época em que as pessoas não estavam obviamente no clima de alegria, e precisava recuperar o caixa do estúdio que havia gastado verdadeiras fortunas em outros projetos, como Pinóquio, mas sem retorno nas bilheterias. O jeito foi fazer um desenho simples e no estilo dos curtas-metragens, tanto é que a obra dura 65 minutos aproximadamente. A distribuidora, na época a RKO, pediu para que Disney revisse seus planos e transformasse o desenho em um curta, ou criasse sequências novas para aumentar a duração ou ainda lançasse como um filme B, assim entrando em cartaz em circuito reduzido. As idéias foram recusadas e Dumbo foi lançado em sua versão original como um filme normal. Não fez grandes fortunas, pois o famoso ataque a Pearl Harbor e a entrada dos EUA na guerra atrapalharam, mas devido ao baixo orçamento empregado, o saldo foi positivo, mesmo tendo um protagonista que não pronuncia uma única palavra, mas que conquista o público com seu carisma e inocência. Com um colorido estarrecedor, fruto de uma coloração feita a base de aquarela, personagens cativantes e história enxuta e eficiente, o longa prova que não é preciso gastar milhões para conseguir um resultado digno, mesmo quando se trata de uma animação. Como sempre, existem pessoas que não tem o que fazer e ficam procurando pêlo em ovo. Muitos afirmam e propagam a idéia de que o longa é prejudicial às crianças por incentivá-las a revidar quando são ridicularizadas, racismo implícito na presença dos corvos e até mesmo pelo fato do elefante poder voar. Se levarmos tudo a ferro e fogo assim não existiria cinema infantil.

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