quarta-feira, 2 de novembro de 2011

ESQUECERAM DE... PÂNICO

Hoje a lembrança desta coluna vai para um título que não está esquecido na memória do público, pelo contrário, está muito vivo nas lembranças principalmente dos adolescentes, já teve algumas continuações e é considerado um marco cinematográfico de terror, mas inexplicavelmente está fora do mercado há alguns anos. Pânico (1996) é uma obra assinada pelo cineasta Wes Craven que na década de 1980 marcou seu nome na história do cinema ao criar um dos serial killers mais famosos do cinema, o Freddie Krueger, tirando o sono de muita gente com A Hora do Pesadelo. Desde então, uma série de outras produções semelhantes surgiram, inclusive muitas feitas especialmente para lançamento em vídeo aproveitando o boom das videolocadoras. Pouco depois de uma década da primeira carnificina praticada pelo cara das garras de metais e rosto desfigurado ter sido lançada, o mesmo diretor tratou de revitalizar um gênero que já estava saturado e descambando para produções trash que mais causavam risos que sustos. Sua nova incursão requentava a velha fórmula do grupo de jovens formado por atores praticamente desconhecidos fugindo de um sádico assassino, mas a forma de apresentar isso a um novo público foi diferenciada.

A trama tem como atrativo um serial killer fanático por filmes de terror que está aterrorizando uma pacata cidade do interior da Califórnia assassinando brutalmente jovens. O vilão da história não é um ser invencível, mas sim uma pessoa comum com algum tipo de transtorno psíquico, mas ainda assim mais inteligente que boa parte de seus alvos. Sua tática de ataque é um tanto curiosa. Primeiramente, ele telefona para sua vítima e a envolve em uma espécie de brincadeira envolvendo perguntas a respeito do cinema de horror. Quem atende desconfia que isso é um trote de algum amigo e embarca na conversa. Porém, tudo fica assustador quando se erra alguma resposta. Imediatamente, uma pessoa usando uma máscara de fantasma e roupas pretas invade a casa da pessoa e a mata com golpes de faca. Em uma dessas tentativas, Sidney Prescott (Neve Cambell) tem sorte e consegue sobreviver, mas a partir dai o maníaco passa a persegui-la. Aos poucos, os amigos e conhecidos dela passam a falecer de maneiras brutais, assim como a mãe da moça foi morta algum tempo antes desses novos episódios.



Ao longo do filme, as pessoas próximas da protagonista são mortas em sequências bem elaboradas e repletas de suspense, mas isso não impede o assassino de vitimar sem muita enrolação qualquer um que passe na sua frente e usando diversas técnicas, mas sempre sua fiel faca está por perto para o golpe de misericórdia. Brincando com a pressão do espectador, Craven faz um irresistível jogo de gato e rato e por diversas vezes aplica sustos falsos só para manter a adrenalina lá em cima, mas fugindo da previsibilidade na maior parte do tempo. Com suas trucagens, quando menos se espera, alguém pode subir para o andar de cima. São várias as cenas que merecem destaque, mas sem dúvida o prólogo deve constar na lista dos melhores de todos os tempos. Nele, somos apresentados praticamente a tudo que precisamos saber para acompanhar o longa e já é possível roer as unhas de tanta tensão. De quebra, temos a atriz Drew Barrymore fazendo suas pazes com o cinema após anos perdidos com vícios. Curiosamente, ela era um chamariz para o público e se tornava uma incógnita. Se ela morre logo no início, o que esperar do restante? É eminente que o imprevisível poderia acontecer, mas ficava a dúvida se o saldo seria positivo ou negativo. A primeira opção sem dúvida. 

Geralmente este tipo de produção é malhada pela crítica, mas neste caso ela foi bastante generosa oferecendo muitos elogios rasgados. Realmente, após um período longo e pobre ao gênero, com minguadas bilheterias e um ou outro título relevante, Pânico chegou para abalar as estruturas. Inicialmente apenas mais um filminho para entreter adolescentes, a produção surpreendeu em todo o mundo. Caindo no gosto do público alvo instantaneamente, é óbvio que a fita causou frisson na premiação de cinema da MTV e continuações e filhotes não tardariam a chegar. Foi responsável pelo movimento cinematográfico conhecido como terror teen que gerou nos anos seguintes sucessos como Lenda Urbana e Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado e até outros países entraram na onda dos serial killers. Na década de 2000, esse estilo caiu em desuso com a onda de refilmagens orientais, porém, sempre são lançados produtos semelhantes, geralmente direto em DVD, mas a repercussão é infinitamente menor.


Não é por acaso que Pânico teve o mérito de dois anos depois de o lançamento estar em uma conceituada lista dos 500 melhores filmes de todos os tempos e até hoje o título marca presença em algumas listagens do tipo, um espaço raríssimo para produtos do gênero. Desde a concepção da idéia, passando pelo roteiro, diálogos, do início ao fim esta produção é triunfal. A história com pitadas de humor negro foi desenvolvida por Kevin Williamson e recebeu muitos elogios, assim todas as produtoras de filmes, principalmente as especializadas em produções de horror e suspense, queriam este nome em seu casting. Ele foi responsável não só pelas eletrizantes sequências de perseguição e tortura, com direito a muito sangue sem escamoteações, o que levou a obra a ser mutilada em diversos países, mas também por desenvolver de maneira crível os personagens. Além de Neve Campbell, o casal David Arquette e Courtney Cox brilhou respectivamente como um policial e uma jornalista. O trio se destacou tanto que ficou com a imagem irremediavelmente ligada ao longa. Projeção bem-vinda na época, hoje eles sofrem com a escassez de convites para atuar no cinema.

 A contabilidade da franquia é gigantesca. Deve-se chegar a uma fortuna de vários milhões somando os lucros mundiais de cinema, venda para TV paga, aberta e nos formatos de venda direta ao consumidor e locadoras das quatro produções que constituem a série. Em 2000, a trilogia foi fechada com um filme que causava sustos, mas tirava sarro da obra original. Dirigida também por Craven, na época ele afirmava que não revisitaria mais essa história, porém, em 2011, o quarto episódio foi lançado. E aqui chegamos ao motivo desta produção ser destacada como esquecida. Com mais uma continuação sendo lançada mais de uma década após o último capítulo, nada mais natural que os três primeiros filmes fossem disponibilizados no mercado para novos espectadores, mas inexplicavelmente a obra original, aquela que iniciou todo esse sucesso e é um marco, simplesmente não existe. Alguns sites e blogs divulgaram o lançamento de toda a coleção neste ano, mas uma busca pelas principais lojas virtuais prova que Pânico continua indisponível. Pode ser que algum problema envolvendo direitos autorais ou de exploração sejam os motivos do entrave, mas ficamos na torcida para que o lançamento em DVD ocorra realmente.

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