quarta-feira, 9 de novembro de 2011

ESQUECERAM DE... OS AMORES DE PICASSO

As histórias sobre artistas das mais diversas áreas sempre foram uma excelente fonte de inspiração para o cinema. A trajetória ou determinado período da vida de vários atores, diretores, músicos e cantores já chegaram as telas de cinema. Quando o destaque vai para artistas plásticos, tais produções ganham um charme a mais devido ao colorido das telas desses gênios da pintura. Assim, a vida artística e profissional de Frida Kahlo, Pollock, Rembrant, Caravaggio, Goya entre tantos outros ganharam suas versões em película carregando em seus títulos nomes de pesos que já se encarregam de atrair público, porém, muitas dessas obras inexplicavelmente estão fora do mercado, como é o caso de Os Amores de Picasso (1996), filme que acompanha dez anos conturbados da vida de um dos maiores representantes da arte cubista.



Baseado em dois livros, "Minha Vida com Picasso", de Françoise Gilot, e uma detalhada biografia de Arianna Stassinopoulos Huffington, esta é mais uma produção que leva a assinatura de James Ivory e de Ismail Merchant, respectivamente diretor e produtor. Para quem nunca ouviu falar nestes nomes, eles foram os responsáveis por diversos filmes que fizeram história nas mais diversas premiações entre as décadas de 1980 e 1990. A dobradinha rendeu, por exemplo, Uma Janela Para o Amor, Retorno a Howards End e Vestígios do Dia, todas produções com estirpe para figurar nas listas dos melhores de seus respectivos anos de lançamento. Contudo, o estilo da dupla ao longo tempo começou a se desgastar. Seus trabalhos já não rendiam elogios e bilheterias como o esperado e passavam longe das indicações a troféus, assim, pouco antes da virada do século, a vaga de sinônimo de filmes sofisticados e merecedores de prêmios passou a  ser ocupada pelos irmãos Bob e Harvey Weinstein, os donos do estúdio Miramax que em menos de dez anos colecionaram cerca de uma centena de indicações ao Oscar com suas produções e conquistando várias estatuetas.    


Esta produção a respeito de Pablo Picasso pertence a fase de declínio da união entre Ivory e Merchant. Porém, julgar seu valor por causa de prêmios ou repercussão na época não faz jus a este trabalho que ainda hoje é muito procurado por escolas, universidades e amantes das artes e cultura. Com um visual belíssimo e muito sofisticado, o filme tem uma reconstituição de época minuciosa desde a escolha de um pequeno objeto até a iluminação. Tais cuidados com os detalhes são típicos dos trabalhos da dupla, mas aqui parece que o apuro técnico é maior justamente por falar de alguém envolvido com as artes manuais. Muitos críticos acusam a obra de ser muito pretensiosa e não apresentar um enredo substancioso, mas as opiniões de boa parte do público são contrárias e lembram do filme com muita nostalgia e emoção.

A narrativa concentra-se entre os anos de 1943 e 1953, período do conturbado envolvimento entre Pablo Picasso (Anthony Hopkins) e Françoise Gilot (Natascha McElhone), a própria autora de um dos livros que inspirou o filme. Toda essa história é contada pelo ponto de vista desta mulher cerca de quarenta anos mais jovem que o seu mestre que tanto idolatra. Ela torna-se sua amante, mas isso não impede que o pintor tenha casos com outras damas como Dora Marr (Julianne Moore), Marie-Therese Walter (Susannah Harker) e, obviamente, sua esposa Olga (Jane Lapotaire). O gênio cubista é apresentado como um homem dominador, egocêntrico e até cruel. É até difícil imaginar como uma pessoa tão avessa as relações afetivas tinha tanta sensibilidade para deixar mensagens subliminares em suas obras que para alguns leigos não passam de um monte de rabiscos. Na época retratada no longa, Picasso estava mudando suas preferências artísticas e investindo na cerâmica, atividade pouco conhecida sua.


A opção em enfocar Picasso numa fase madura e já tendo seu trabalho reconhecido foi muito boa e foge do lugar comum das cinebiografias que tendem a fazer um dramalhão da história de algum famoso contando desde sua infância até seu falecimento que, coincidência ou não, na maioria dos casos sempre ocorrem acerca de circunstâncias sofredoras. Segundo relatos, Hopkins tem uma semelhança impressionante com o pintor espanhol, mas claro que a natureza só deu uma mãozinha, mas não fez milagres. O ator usou lentes de contato, dentadura, maquiagem e emagreceu cerca de quinze quilos para compor o personagem, porém, está longe de ser uma das interpretações mais inspiradas dele. O problema é que não ficam visíveis as qualidades deste homem capazes de fazerem tantas mulheres se sentirem atraídas e até mesmo se anularem. A única que consegue manter certa distância deste poder de sedução é Françoise, ainda que tenha convivido por uma década com seu ídolo, lhe deu dois filhos e aprendeu a amar a arte graças a ele.

Sempre que um filme é aguardado com muitas expectativas ou se baseia em fatos reais acerca de uma personalidade, é quase impossível não causar decepção para algumas pessoas. De Os Amores de Picasso esperava-se muito, já que ele tem uma vida pessoal e profissional muito rica. Ele próprio é um ser capaz de suscitar discussões. Ao mesmo tempo carismático e com poder de atração excepcional, também é uma figura amarga e sem medo de causar a infelicidade dos outros. Esta obra fica em cima do muro do que almejava as platéias. Não explora com perfeição a tal vida amorosa do artista, tampouco seus trabalhos. Ainda assim, um título que faz falta no mercado. Um registro importante para o mundo das artes e para a história cinematográfica marcando o declínio do modelo de cinema sofisticado proposto por Ivory e Merchant. 

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