terça-feira, 29 de novembro de 2011

JOGOS MACABROS E LUCRATIVOS


 
Dois estranhos, interpretados pelos desconhecidos Cary Elwes e Leigh Whannell, este último também é responsável pelo roteiro, despertando dentro de um banheiro imundo e cheio de sangue. Ambos acorrentados e sem a menor idéia de onde estão e do que aconteceu. Entre eles existe um cadáver e para saírem de lá descobrem que a automutilação é o caminho e que os dois não poderiam ficar vivos. Esta cena não é o ápice de Jogos Mortais, pelo contrário, é só a primeira sequência torturante entre tantas outras que virão a seguir. O impacto desta introdução felizmente é mantido durante todo o longa-metragem construído em cima de uma história macabra e insana que foi produzido em 2004 com o intuito de saciar a sede de sangue dos adeptos dos filmes de terror que não aguentavam mais o catchup expelido por adolescentes bobocas sendo massacrados por sádicos mascarados. O roteiro tem como proposta mostrar até que ponto um indivíduo pode chegar para garantir sua sobrevivência, mas não espere um material para uma tese. Quem comanda os tais jogos mortais é o assassino Jigsaw, vivido por Tobin Bell. Seu nome significa enigma. Ele é chamado assim por causa de uma cicatriz em forma de quebra-cabeças que ele deixa na pele de suas vítimas, assim obrigando-as a cometerem verdadeiras atrocidades não só nos corpos dos outros, mas também em seus próprios. Na mente psicótica desse criminoso, a tortura é a melhor forma de fazer uma pessoa compreender o valor da vida. Se ela consegue escapar da armadilha que ele monta, ela é uma vitoriosa e começa a ver as coisas com outros olhos ou, em outras palavras, fica tão cheia de ódio dentro de si que passa a perpetuar a onda de violência. No elenco, o único nome mais famoso é o de Danny Glover escalado para viver o tenente que conduz as investigações e que acaba criando uma obsessão enlouquecida para encontrar o assassino. O espectador acompanha a história ora em tempo real, ora em flashback, roendo as unhas de tanta tensão graças a eficiente direção de James Wan que capricha nos takes escatológicos e para captar o sofrimento dos torturados. Apesar de toda a inovação na narrativa e no visual, o longa não escapa do clichê do criminoso mascarado, mas ainda assim surpreende. Ele conduz seus jogos através de uma televisão e aparece como um sinistro boneco com voz disfarçada.

Os filmes de terror não gozam de grande prestígio junto a crítica, salvo algumas produções isoladas, mas não se pode negar que esta carnificina em ambiente claustrofóbico merece destaque na história do cinema. Sim, os filmes assustadores também fazem parte desse histórico e muitos deles já escreveram seus nomes em importantes passagens. Na década de 1970, O Exorcista abriu os olhos do mundo todo para provar que uma produção de terror pode ter conteúdo e ser excepcional, assim como anos antes O Bebê de Rosemary também fez, porém de forma mais leve. Nos anos 1980, A Hora do Pesadelo, Sexta-feira 13 e seus derivados contribuíram para que o mercado de vídeo deslanchasse levando o que era proibido a menores no cinema para as suas casas, uma questão até polêmica. Quase na virada do século, O Sexto Sentido causou impacto por onde passou com sua tensão psicológica e sem precisar de litros e litros de molho de tomate. Assim, Jogos Mortais fica sendo uma grande marca para o gênero na primeira década do século 21. Levou multidões aos cinemas, fez sucesso em DVD e se não foi super elogiado pelos críticos, ao menos não foi massacrado. Porém, como tudo na vida, o excesso faz mal. O que começou bem acabou se tornando um caça-níquel frenético. De 2005 até 2010, foram lançados nada menos que mais seis sequências e algumas chegaram a estrear em tempo recorde, cerca de seis a oito meses após o outro, como no caso da segunda empreitada. Tamanha rapidez se deve ao modelo econômico da produção. Elenco reduzido, poucos cenários, trucagens de câmera, edição rápida e a exploração da violência nos extremos da loucura, esta é a receita de sucesso. Por enquanto, a cinessérie se dá por encerrada no sétimo capítulo, mas no cinema tudo pode ter uma nova chance e nunca se sabe. Quando o cofre fica vazio, não tem jeito, os produtores têm que reciclar o que já deu certo um dia. Freddie Krueger e Jason estão ai para comprovar. Depois de tantas sequências, voltaram em remakes, mas sem o sucesso de outrora. Seja como for, a intrigante história de dois desconhecidos lutando para sobreviver nas mãos de um sádico dificilmente será superada, vide a qualidade das outras torturas de Jigsaw e seus seguidores. Declínio a olhos nus. 

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