quarta-feira, 23 de novembro de 2011

ESQUECERAM DE... A RODA DA FORTUNA

Os famosos irmãos Coen desde os primeiros passos no mundo do cinema nunca passaram despercebidos, tendo o apoio da crítica quase que integralmente. Há anos suas obras são consideradas cults e as várias passagens por premiações acabaram ampliando e diversificando seu público. Eles não saem de moda e seus nomes se tornaram grifes que chamam a atenção dos espectadores, estes que cada vez mais querem conhecer mais a fundo o currículo deles. Curiosamente, um título muito elogiado da dupla hoje em dia é praticamente desconhecido, apesar de ter sido lançado em DVD, mas atualmente ele está fora de catálogo. Na realidade, A Roda da Fortuna (1994) não fez o sucesso esperado, mas tem filmes que só com o passar do tempo consegue mostrar seu valor.

Este filme é uma reinvenção do estilo preferido de filme do cultuado cineasta Frank Capra que sempre gostou de histórias de pessoas em busca das realizações de seus sonhos. Desde as cenas de abertura até as últimas, a atmosfera nostálgica da primeira metade do século passado está presente. Este exemplar do chamado "screwball comedies", denominação para as comédias inspiradoras e com belas mensagens, abriu as portas de Hollywood para Ethan e Joel Coen que até então fizeram a fama de seus nomes com a ajuda de festivais espalhados por todo o mundo. O primeiro assina a produção e o segundo a direção, mas os dois irmãos escreveram o roteiro. Eles ainda contaram com a ajuda do experiente Sam Raimi no texto e atrás das câmeras, profissional já acostumado a lidar com orçamentos modestos devido ao seu início de carreira na década de 1980, uma situação bem oposta a atual. Com muita criatividade e talento, esta equipe pequena provou que não é necessário milhões em caixa para fazer um bom trabalho.


O protagonista da história é Norville Barnes (Tim Robbins), um jovem ingênuo e sonhador que chega a Nova York da década de 1940 com uma idéia na cabeça, mas que no entusiasmo acaba se envolvendo em uma trama de corrupção de uma grande corporação. Inesperadamente o presidente das Indústrias Hudsuker, o senhor Waring (Charles Durning), comete suicídio. Seu lugar deveria ser ocupado por Sidney Mussburger (Paul Newman) que está preocupado com uma cláusula do estatuto da companhia que prevê que o novo presidente deve colocar em oferta pública as ações do fundador. O maquiavélico executivo então arma um plano para convencer o mercado de que a empresa está a beira da falência, o que faria com que as ações tivessem seus valores rebaixados. Sem compradores, os atuais acionistas então poderiam aumentar suas participações na empresa adquirindo ações a preço de banana. Para tanto, uma pessoa despreparada para assumir o comando de tudo e eis que Barnes surge na hora e lugar errado. Ele está lá só para entregar uma correspondência, mas acaba criando algumas confusões e invertendo o jogo graças a sua idéia: um brinquedo novo.

Barnes mostra a todos apenas um círculo desenhado no papel e ninguém compreende sua brilhante idéia. Mesmo assim, Mussburger o encoraja a levar o projeto adiante e o sonho vira realidade. Assim nasce o bambolê, um popular brinquedo do século 20 que durante décadas fez a alegria de muita criança. Crente que o produto seria um fracasso, o ganancioso executivo cai do cavalo. O rapaz sonhador consegue salvar a imagem da empresa, porém, nesse processo de fazer fortuna rapidamente acaba se corrompendo. Quem observa tudo de perto e desconfia que existam coisas erradas nessa indústria é a ambiciosa repórter Amy Archer (Jennifer Jason Leigh), com quem o mais novo homem bem sucedido do pedaço está se relacionando. Para completar, através de uma narrativa ágil e cheia de humor e cinismo, o narrador passa ao espectador detalhes a respeito da trama que o protagonista nem desconfia.


Mesmo com orçamento apertado, fornecido pelo produtor Joel Silver, o time responsável pelo visual do filme faz uma recriação de época com muita perfeição, desde os cortes de cabelos e figurinos até os pequenos detalhes dos cenários, porém, com certos toques diferenciados. A mistura do nostálgico com o onírico ajuda a trazer humor e agilidade ao texto que, como manda a tradição dos Coen, é conduzido através de personagens com características marcantes e que flertam entre o realismo e a caricatura como a repórter Amy, uma mulher que praticamente não tem vida pessoal, vive para o trabalho, mas é responsável por passagens muito engraçadas graças ao seu estilo de disparar frases como uma metralhadora. Já o personagem sonhador de Robbins é de fácil identificação, pelo menos inicialmente quando seus sonhos não são movidos a dinheiro e sim por ideais.

O grande tema de A Roda da Fortuna acaba sendo desenvolvido a partir da chegada de Barnes ao topo da empresa, unidade que ficou a cargo da direção de Raimi. É nela que fica explícita a homenagem a Frank Capra, fora a abertura em qua a câmera passeia por uma Nova York bela e adornada pela neve. A redenção das pessoas que foram com o passar dos anos perdendo os valores básicos sobre os quais a sociedade deveria se sustentar é encarnada na figura do empresário que caiu de pára-quedas. Sua cidade-natal, Muncie, pode ser interpretada como um modelo de mantenedora dos valores éticos discutidos. A cidade grande a vilã que trata de destruir esses ensinamentos. Pode parecer que o roteiro é complexo demais, mas a história é contada de forma deliciosa e a mistura de características variadas das décadas de 1920 até 1950 completam o espetáculo. Premiada pela Associação dos Críticos de Londres e selecionada para concorrer a Palma de Ouro no Festival de Cannes, esta é uma obra que inexplicavelmente está fora do alcance dos consumidores. Mesmo com toda a projeção dos Coen, ainda existem distribuidoras e estúdios que não tem visão e passam batido pela oportunidade de lucrar.

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