quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

FESTIVAL DE FÉRIAS - O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD

As festas de fim de ano acabaram e hoje muita gente está colocando o pé na estrada, se acomodando em um navio ou embarcando em um avião para curtir alguns dias de descanso em um lugar longe de casa para esquecer qualquer preocupação. A dica de hoje, O Exótico Hotel Marigold (2012), é um agradável passeio pela Índia na companhia de um elenco de luxo reunido pelo diretor John Madden finalmente realizando um trabalho relevante após o premiado Shakespeare Apaixonado. O longa é uma comédia simpática com toques dramáticos que não é perfeita, tem suas falhas, mas talvez o seu jeito despretensioso a transforme em um belo entretenimento. A história pode ser resumida simplesmente como a crônica de um grupo de pessoas da terceira idade que deseja descansar um pouco dos ares ingleses e decide experimentar o tempero do Oriente Médio. O que torna esta experiência interessante é que eles não se conhecem até a chegada ao aeroporto para embarcarem e cada um tem um motivo particular para esta viagem.

Muriel (Maggie Smith) é uma ex-governanta preconceituosa com estrangeiros que possui um problema de saúde e precisa ser operada as pressas. Douglas (Bill Nighy) e Jean (Penelope Wilton) são casados há anos e precisam se adaptar à nova situação financeira que os abala. Evelyn (Judi Dench) perdeu o marido há pouco tempo, mas não quer ficar sob os paparicos de familiares. Graham (Tom Wilkinson) é um juiz recém-aposentado que quer voltar à Índia para resolver problemas do passado envolvendo um amor impossível. Por fim, Norman (Ronald Pickup) e Madge (Celia Imrie) não perderam as esperanças de encontrar um grande companheiro, nem que seja para viver juntos os últimos momentos que lhes restam, mas enquanto o parceiro ideal não aparece eles tentam se divertir com rápidos relacionamentos. Estes são alguns dos novos hóspedes do Hotel Marigold que se empolgam com a publicidade do local, mas quando chegam lá se deparam com um prédio decadente e com infra-estrutura que deixa a desejar. Entretanto, todos acabam envolvidos pelo entusiasmo do jovem Sonny (Dev Patel) que sonha em ver o tal hotel revitalizado e assim aceitam ficar hospedados sem saber que as experiências que viverão nesse exótico país mudarão para sempre suas vidas.


Baseado no livro “These Foolish Things”, de Deborah Moggach, o roteiro de Ol Parker, que já tinha demonstrado extrema delicadeza ao abordar o lesbianismo na comédia romântica Imagine Eu e Você, agora reúne toda a sua sensibilidade para orquestrar uma história que aborda vários aspectos que envolvem a terceira idade, todos apontando que a velhice não deve ser encarada como um sinônimo de morte. Se você está vivo deve viver seja aprendendo a lidar com a solidão ou com seus medos ou desfrutando de suas amizades e até mesmo dos prazeres que o sexo pode oferecer. O que prejudica relativamente este trabalho é que cerca de duas horas é pouco para desenvolver satisfatoriamente tantos ganchos narrativos interessantes, um problema que fica mais evidente nos primeiros minutos quando são apresentadas as principais características de cada um dos idosos que embarcarão para essa viagem à Índia. Ainda assim, o restante do longa não dá conta de explorar tudo o que poderia ser extraído de todas as subtramas, sendo a mais relevante a do aposentado Graham, levando ainda em consideração que o personagem Sonny não fica perdido na trama apenas como um entusiasta que não quer vender o terreno do hotel de sua família para preservar um pouco de sua essência e tradições. Ele também tem sua trama paralela vivendo em conflito com sua rígida mãe, a Sra. Kapoor (Lillete Dubey), que é contra o casamento do rapaz com a jovem Sunaina (Tena Desae) a quem ela não considera ser uma mulher com qualidades para uma esposa perfeita.

À primeira vista essa mistura de histórias pode parecer um tanto confusa, mas o cineasta britânico soube aproveitar ao máximo o seu elenco de veteranos e as paisagens indianas para trazer movimento ao seu longa que carrega do início ao fim a essência do cinema europeu. O início, com os problemas no aeroporto, a viagem improvisada de ônibus e a decepção de se deparar com um hotel em frangalhos, poderia nas mãos de um diretor despreparado se tornar uma comédia boboca que no fundo só serviria para expor personagens da terceira idade à situações ridículas e assim jogando por água abaixo qualquer lição de vida. Porém, Madden trouxe realismo a tais situações e soube criar vínculos tanto entre os personagens quanto para que os espectadores se envolvessem com seus dilemas, desde uma morte súbita até romances inesperados. A chegada à Índia fará com que cada um deles se aproxime cada vez mais formando assim um grupo unido no qual todos prestam solidariedade uns aos outros para ajudar a enfrentar os problemas do passado, do presente e do futuro, além do auxílio para se adaptarem a diferente cultura do país.


Apesar de para muitos ser apenas um apanhado de clichês, com personagens estereotipados vivendo situações previsíveis, O Exótico Hotel Marigold carrega consigo certo toque de originalidade. Quase como um road movie, colorido, intenso e adornado pelas belíssimas e praticamente desconhecidas paisagens indianas, esta obra é uma excelente opção para quem busca uma comédia com conteúdo. Hoje em dia sabemos que já existem produções do gênero voltadas ao público mais maduro, mas ainda assim muitas delas deixam a desejar por investirem em situações vexatórias expondo assim seus personagens ao ridículo, um erro comum principalmente de Hollywood. Madden e seu jeito elegante e tipicamente britânico de fazer cinema trazem nesta produção uma imagem digna e positiva do idoso, mostrando não somente ao público da terceira idade, mas também para todas as outras idades que não devemos em hipótese alguma desistir da vida e que envelhecer é só o começo de um novo tempo que pode ser muito bom, tudo depende de você mesmo. Em uma época tão conturbada como a atual, quando todas as nações sofrem principalmente com a falta de respeito e amor ao próximo, faz bem assistir a filmes deste tipo que resgatam valores importantíssimos e nos deixam mensagens para refletir. Qual o problema, por exemplo, de uma das personagens ser preconceituosa com pessoas de outras nacionalidades e graças a uma simples viagem mudar sua opinião quanto a xenofobia servindo assim de exemplo a ser seguido? Clichê demais? Parece que o mundo precisa muito desses clichês para se tornar um lugar melhor.

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