terça-feira, 1 de janeiro de 2013

FESTIVAL DE FÉRIAS - A INVENÇÃO DE HUGO CABRET

No início de 1896 um curto filme intitulado A Chegada do Trem na Estação impactou quem o viu. Em Paris, os irmãos Auguste e Louis Lumière, considerados por boa parte dos historiadores como os criadores da arte cinematográfica, filmaram o veículo do título em perspectiva lateral e isso causou na platéia a impressão de que os vagões estavam realmente seguindo em direção a ela e invadiria a aconchegante sala escura a qualquer momento. O resultado é que os desavisados espectadores ficaram em pânico e uma grande confusão começou. Mais de um século se passou e hoje o público deseja realmente assistir a um filme no qual possa ter a sensação de que o imaginário invadiu a realidade, mas para tanto não basta apenas a imaginação. Agora os efeitos 3D tratam de aproximar ao máximo os espectadores dos elementos cinematográficos, o que em alguns casos pode empobrecer a experiência de ir ao cinema ou até mesmo ver um filme em casa. Todavia, o mercado atual pede tecnologia para gerar lucros e até um dos mais renomados cineastas de vanguarda ainda em atividade aderiu ao sistema. A Invenção de Hugo Cabret (2011) marca a estreia de Martin Scorsese no gênero fantasia e também no mundo das inovações.

Acostumado há anos a trabalhar com temas fortes, realistas e principalmente o mundo dos gângsteres, Scorsese aceitou realizar este trabalho para agradar a esposa e a filha de 12 anos que lhe apresentou o livro homônimo de Brian Selznick. Já idoso, mas ainda com muito pique e criatividade, o cineasta não fez simplesmente um filme para entreter crianças, muito pelo contrário. Além de a história ser palatável para adultos, Scorsese fez uma bela homenagem à própria sétima arte e a si mesmo de certa forma, pois se o cinema é a arte que transforma sonhos em realidade, faltava em seu currículo um trabalho literalmente fantasioso para dar o último atestado de que ele sem dúvida é um dos maiores e melhores cineastas de todos os tempos. Indicado a onze prêmios Oscar, o longa venceu em cinco merecidas categorias técnicas, mas a Academia de Cinema ficou devendo a estatueta para o diretor, talvez porque ele já tenha uma em sua casa por Os Infiltrados. Na comparação entre as duas produções digamos que o premiaram na época errada acreditando que em 2007 seria a última chance de corrigir injustiças com este profissional que ajudou a escrever a História do cinema e até do próprio Oscar com clássicos como Táxi Driver e Touro Indomável. Pesou também a concorrência com o francês O Artista que coincidentemente também fala dos primórdios da atividade cinematográfica, mas Scorsese vai além em sua empreitada e realizou praticamente uma declaração de amor a ela.


Voltando a falar sobre este misto de drama, aventura, romance, fantasia e até documentário, uma mistura que funciona harmoniosamente até certo ponto graças a um impecável trabalho de edição, o roteiro de John Logan nos apresenta ao garoto Hugo Cabret (Asa Butterfield), um órfão que vive, em meados da década de 1930, escondido entre os enormes relógios que ficam em uma estação de trem de Paris (uma das várias citações do enredo aos primórdios do cinema). Ele passa seu tempo colecionando diversas peças de brinquedos para tentar consertar um autômato quebrado, uma espécie de robô, deixado pelo seu falecido pai (Jude Law), um relojoeiro, mas as consegue roubando uma loja, o que lhe acarreta problemas com Gustave (Sasha Baron Cohen), o inspetor da estação, que passa a persegui-lo constantemente. Certo dia o dono do tal estabelecimento, Georges (Ben Kingsley), rouba um caderno de anotações do garoto, umas das poucas coisas que seu pai lhe deixou, dando a entender que naqueles escritos existe algo de muito importante e que há uma ligação com o comerciante. Este segredo nem a afilhada de Georges, Isabelle (Chloë Moretz), sabe, mas agora esta duas crianças curiosas vão fazer de tudo para desvendarem este mistério que pode ajudá-las a compreender melhor o histórico de suas próprias famílias. Quem seria este Georges que aparentemente é um tanto rabugento, mas que ironicamente trabalha como vendedor de brinquedos? Mais uma vez Scorsese usa a metalinguagem. Este senhor seria ninguém menos que o cultuado cineasta Georges Méliès. Nunca ouviu falar dele? Tudo bem, mas certamente você já deve ter visto em algum lugar uma de suas mais famosas cenas: a de uma lua com rosto e expressões faciais, uma sequência pertencente à produção Viagem à Lua, datada de 1902.

Pelo menos um século antes da invenção do 3D, Méliès já fazia uso de efeitos tridimensionais através de técnicas oriundas do ilusionismo. Este visionário se apaixonou pelo cinematógrafo criado pelos irmãos Lumière, estes que só captavam através do revolucionário equipamento cenas banais do cotidiano, e resolveu juntar todas as suas economias e até vender alguns bens para montar seu próprio estúdio de cinema. Por amor a essa nova arte ele se desdobrava em várias funções dentro de um mesmo projeto. Escrevia, dirigia, produzia, atuava e editava. Essa foi sua rotina por muitos anos até que a Primeira Guerra Mundial chegou e acabou com a magia. Os soldados que voltavam da guerrilha viram tantas coisas ruins nesse período e a própria população sofreu tanto que a dura realidade tirou o brilho e o encantamento de se entrar em uma sala escura e esquecer os problemas. Em seguida, novos diretores surgiram cheios de criatividade e sabendo fazer bom uso do advento das cores e do som. Assim, Méliès e sua obra foram esquecidos. Ele foi considerado morto e seus filmes estragaram com a ação do tempo. Como diz o pequeno Hugo em certo momento, “tudo tem seu propósito, quando não se tem mais está quebrado”. O cineasta se sentiu inválido e preferiu se recolher em sua pequena loja na estação de trem.


É interessante perceber que o relógio é um dos elementos mais marcantes desta produção o que nos remete ao tempo, este que foi impiedoso com Méliès. Scorsese se aventurando em um terreno no qual jamais pisou ao longo de sua carreira e experimentando as maravilhas que a tecnologia oferece ao cinema atualmente parece querer “dar um perdido” nos ponteiros do relógio e continuar se mantendo em evidência. Por outro lado, a opção de revisitar os primeiros anos da sétima arte, com direito a imagens reais e recriações dos bastidores e dos títulos destacados, é como se fosse uma carta de despedida, como se o diretor soubesse que inevitavelmente mais cedo ou mais tarde sua carreira será interrompida seja por vontade própria ou o desejo do tempo. Se encerrasse seus trabalhos com A Invenção de Hugo Cabret, certamente o diretor estaria deixando para a História do cinema um belo legado, uma obra atemporal que dialoga com o passado e o presente e que será um importante registro no futuro. Com uma parte plástica invejável e uma premissa muito interessante, contudo é importante ressaltar que talvez em um primeiro contato o espectador não encontre elementos suficientes para apreciar esta obra. É certo que o enredo parece ser dividido em dois blocos distintos no qual o primeiro exalta o cinema escapista e o segundo ato apresenta esta arte como ferramenta documental. Apesar de existir essa divisão narrativa, quem estiver aberto a entrar por pelo menos duas horas em um mundo de sonhos, esta é sem dúvida uma excelente dica. Vale a pena conferir e tecer suas próprias opiniões, afinal caminhos a serem analisados aqui não faltam e é difícil descrever, resumir, criticar ou elogiar esta obra em algumas poucas linhas.

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