sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

FESTIVAL DE FÉRIAS - A MULHER DE PRETO

Quem nunca sentiu um calafrio ao passar pelas redondezas de uma casa abandonada ou uma construção distante em meio a um matagal? Hollywood sempre gostou de explorar o filão das residências assombradas, mas nos últimos anos esse tipo de produção acabou perdendo seu charme ao ter que dividir seu público com as fitas de seriais killers ou de exorcismos, ou seja, precisaram se adaptar aos novos tempos e apostar em sustos fáceis, escatologia, erotismo e muito sangue para agradar. Só por fugir deste esquema batido já vale a pena dar uma conferida em A Mulher de Preto (2011), um dos principais projetos da produtora Hammer que retomou suas atividades em 2007. Para quem nunca ouviu falar dela, basta dizer que a empresa praticamente moldou um subgênero do terror principalmente nos anos 70 ressuscitando Drácula, Frankenstein, Múmia e outras criaturas horripilantes clássicas ou que tinham ligações com esses monstros famosos, geralmente tendo os atores Christopher Lee e Peter Cushing encabeçando as produções. Hoje quem consegue assistir pelo menos uma dessas pérolas do terror de antigamente pode tanto achar que está diante de uma maravilha do cinema quanto também considerar uma verdadeira obra trash, mas o fato é que não se pode negar a importância do estúdio em determinada época para a História da sétima arte.

Tentando resgatar um pouco da áurea dos filmes de terror clássicos, mas ainda visando faturar alto com as novas gerações, o diretor James Watkins, roteirista de Abismo do Medo 2, conta uma história levemente baseada no tema espiritismo protagonizada por Daniel Radcliffe, o eterno Harry Potter que agora com o fim da série de filmes do bruxinho precisa se dedicar ao máximo para provar que pode assumir novos papéis e bem mais maduros. Embora ainda continue com um pé na fantasia neste caso, o jovem ator se esforça para convencer o público com um personagem que já é pai de uma criança pequena e que ainda sofre com a morte precoce de sua esposa. Ele vive Arthur Kipps, um advogado que foi enviado por seu escritório para regularizar os documentos de uma mansão cujo dono recentemente faleceu e que fica próximo a um vilarejo inglês no qual algumas crianças estão sofrendo mortes misteriosas de tempos em tempos. O rapaz chega ao local sem saber de tais boatos, mas quando começa a ter uma série de visões misteriosas enquanto executa seu trabalho, incluindo as constantes aparições de uma mulher vestida totalmente com roupas pretas, ele descobre que existe algo relacionada entre a tal mansão e as mortes repentinas das crianças. Ele decide investigar estes casos com a ajuda de seu amigo Samuel Daily (Ciarán Hinds), outro cético quanto ao espiritismo, mas acaba provocando a ira dos moradores e alguns novos falecimentos ocorrem. Suas preocupações aumentam quando seu pequeno filho também chega ao vilarejo sem saber que corre risco de vida estando lá.

Baseado no livro “Woman in Black”, escrito por Susan Hill, romance já adaptado para os cinemas em um filme homônimo de 1989, o roteiro de Jane Goldman, que escreveu a aventura X-Men: Primeira Classe, consegue prender a atenção mesmo lançando mão de praticamente todos os clichês do gênero. Com uma trama enxuta e eficiente, o grande chamariz desta produção sem dúvida é o clima apresentado que rapidamente envolve o espectador. As equipes de direção de arte e de fotografia capricharam para construir uma ambientação que exala mistério, parecendo que a qualquer momento algo inesperado pode acontecer entre as vielas da vila, nos corredores da mansão ou até mesmo nas regiões campestres que envolvem o vilarejo que sempre é acometido por um clima nebuloso, um ambiente perfeito para ser palco de uma boa história de fantasmas. Dos cenários aos figurinos e passando obviamente pela iluminação, a grande característica visual desta obra é a ausência quase total de cores vivas, predominando os tons acinzentados para acentuar o tom melancólico do local ou até mesmo como uma estratégia para fazer uma alusão ao estilo gótico tão presente nas produções do passado da Hammer. É interessante que a história se passa no início do século 20, mas a atmosfera apresentada deixa claro que a tal cidade assombrada parou no tempo, muito por conta de sua própria população provinciana repleta de tipos esquisitos ou misteriosos. Esta estagnação social obviamente tem algo a ver com a secular mansão e com as aparições da mulher vestida de negro.
Como já dito, o longa não tenta esconder que recicla clichês e procura resgatar o espírito dos filmes de terror mais clássicos, tanto que o bom gancho do conflito interno do protagonista em acreditar ou não na maldição da tal mulher de preto não é bem desenvolvido, certamente algo que acaba por enfraquecer o personagem de Radcliffe que inicialmente pode parecer deslocado no papel, mas quando os sustos começam a surgir já está bem adaptado. Se optaram por limar os conflitos psicológicos do enredo o jeito foi recorrer ao batido tema do choque de classes ou de cultura para dar sustentação ao longa. O Sr. Kipps, como educadamente o jovem é chamado, representa o homem da cidade grande. Vindo de Londres, ele é culto, parece ter uma vida financeira confortável e é cético quanto as crendices populares do vilarejo, um local habitado por pessoas mais simples e menos instruídas. Só que a razão não triunfa sob a emoção. É previsível que o medo do povo tem fundamentos e que uma hora atingirá o advogado, se não fosse assim e concluído com uma reviravolta mais racional o longa não atingiria seus objetivos plenamente, tornando-se uma obra mais para intelectuais e distante dos populares. Aliás, certamente este filme só ganhou projeção por já ter sido estrategicamente pensado para conquistas as massas, caso contrário seria mais um a ir direto para as locadoras e em breve ser esquecido nas prateleiras como tantos outros do tipo.

Embora Radcliffe carregue o filme nas costas sendo exigido em quase todas as cenas, ele também pode ser o calcanhar de Aquiles da produção, visto que seu nome em destaque certamente deve causar repulsa por alguns que podem não apostar no talento do ator. Não tire conclusões precipitadas. É louvável seu esforço e na realidade esta obra não depende tanto de seu protagonista e nem mesmo da tal mulher do título. Os grandes personagens desta adaptação são a própria mansão e a cidade nas quais a trama se desenvolve. O diretor pode não ter inovado nos sustos, cedendo inclusive a tentação dos efeitos sonoros mais incisivos antevendo situações e anulando assim qualquer surpresa para o espectador, mas a forma como ele explorou os detalhes dos cenários são dignos de elogios. Sua câmera passeia pelos interiores da mansão dando a nítida impressão do isolamento no qual o protagonista se encontra e até quando ele está em áreas abertas a sensação de vazio se faz presente. É como se cada imagem tivesse muito mais a falar do que os próprios diálogos, algo que aproxima esta produção ainda mais das tradições do cinema europeu, inclusive lembrando em alguns momentos a atmosfera do elogiado O Orfanato, suspense que também concentra sua ação praticamente toda dentro de uma residência. Em síntese, Watkins optou por mais insinuar do que mostrar, afinal não há nada mais horripilante do que sentir medo do que não podemos ver ou tocar e é justamente nessa escolha que a maioria dos produtos do gênero escorrega preferindo escancarar o sobrenatural obtendo um resultado artificial ou até mesmo ridículo. Ainda bem que aqui essa maldição passa longe. Infelizmente A Mulher de Preto não fez grande sucesso quando lançado nos cinemas, mas merece uma segunda chance no aconchego do lar, tornando-se uma ótima opção para curtir nos fins de noite chuvosos tão típicos do verão.

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