sábado, 15 de janeiro de 2011

FIM DA HUMANIDADE


O fim do mundo está próximo. Bem, pelo menos para o cinema o planeta Terra já estaria extinto há muitos anos graças as pencas de filmes que fazem sucesso desde os anos 70 sobre catástrofes naturais e ameaças de forças sobrenaturais e extraterrenas. Alguns são apenas shows de efeitos especiais e uma orquestra desafinada de gritos. Outros, bem poucos, diga-se de passagem, apresentam algum tipo de reflexão sobre como o homem se comportaria em situações de extremas dificuldades em que a morte parece o único destino.

Justamente no tema homem versus o medo da morte uma recente safra de filmes apostou suas fichas. Ensaio Sobre a Cegueira, A Estrada, O Livro de Eli e O Nevoeiro apresentam um mundo em frangalhos e a degradação do ser humano em meio as dificuldades. Tratando de diferentes formas o tema fim do mundo, todos eles contam com cenas de pessoas lutando como podem para tentar sobreviver o máximo de tempo possível, mesmo com a eminência de que podem ser apenas alguns dias, e despertam a reflexão sobre o que pode acontecer no futuro.

Em um mundo em que cada vez mais as pessoas olham para si mesmas e se fecham em seu mundo particular, vale a pena refletir sobre o que nossas atitudes podem provocar a longo prazo. Não é apenas a depredação dos recursos naturais ou a revolta da natureza com seus fenômenos climáticos que podem acabar com o mundo. O próprio ser humano pode e já está fazendo isso com pequenos atos diários de desrespeito ao seu semelhante e/ou ao meio em que vive. Um tsunami, como o que ocorreu no Japão no início de 2011, é uma fatalidade. Já as enchentes que atormentam os brasileiros em todos os verões talvez fossem menos graves se não fosse pelos lixos que o povo joga na rua, aí é culpa do ser humano.

Os quatro longas em questão trabalham com um pequeno grupo de pessoas acuado por diferentes situações aterradoras. A impossibilidade de enxergar pode parar o mundo. A ganância em desejar ter determinadas coisas pode ceifar muitas vidas. A luta pela sobrevivência transformando o ser humano em verdadeiros animais irracionais. O medo de não sobreviver àquilo que pode ser esconder ao dar o próximo passo rumo a um caminho desconhecido e enevoado. As quatro narrativas guardam a semelhança no tema, mas as conduções são bem diferentes. Duas delas podem até ser vistas como obras de puro entretenimento. As outras seguem uma linha mais pensativa e até mais pesada.

Algumas das cenas mais chocantes de Ensaio Sobre a Cegueira são as que foram gravadas em São Paulo. Uma cidade contemporânea, cinzenta, triste, suja e vazia é o reflexo de uma sociedade doente e egoísta. A deficiência visual dos personagens pode ser interpretada como uma metáfora da vida real. As pessoas estão cegas, presas em seu mundinho. Não enxergam mais nada a sua volta e ninguém se dá conta que nossa sobrevivência tem relação direta com as ações uns dos outros. Quem faz o bem, reverterá o bem para os outros. Quem faz coisas erradas, espalha o que há de pior para o restante em sua volta. O caos instalado na grande metrópole do filme é o resultado da falta de respeito do ser humano com seu semelhante. Todos se acham auto-suficientes, mas na hora da dificuldade é perceptível que sem o trabalho do outro você pode não sobreviver.

A Estrada e O Livro de Eli passam em épocas futuras, quando a humanidade praticamente foi exterminada e os poucos sobreviventes precisam lutar constantemente para se manterem vivos. O ambiente não é nada agradável e nem esperançoso. Um cenário desolador, triste e freqüentado por pessoas estranhas, fechadas e de caráter duvidoso, esse é o palco para as ações dos longas, ou talvez as lamentações que o roteiro propõe. O primeiro segue uma linha mais melodramática enquanto o segundo apresenta uma narrativa estranha, mais fantasiosa, que mescla drama e pitadas de ação e suspense.

O final de O Livro de Eli até tem uma mensagem, mas até chegar lá o caminho é tortuoso. O início tem cenas muito lentas e do nada começam a aparecer personagens estranhos e cenas mais voltadas para o público que gosta de ação. Em comparação aos outros títulos citados, perde feio, a narrativa é muito cansativa e parece ficar em cima do muro. A idéia parece de filme cult, mas a confecção é no estilo parar agradar platéias estilo blockbuster. Já A Estrada, apesar de ter muitas cenas paradas que podem fazer a atenção dispersar, talvez mostre uma realidade mais próxima do que pode realmente acontecer, assim como Ensaio Sobre a Cegueira.

O Nevoeiro já é uma obra que se apresenta de forma curiosa. O título remete a um filme de terror de sucesso dos anos 80. A produção é bem estilo filme B, com direito a monstrinhos de diversas formas. Porém, o roteiro, se for bem analisado, tem mensagens subliminares mostrando as diversas reações das pessoas que se vêem trancafiadas dentro de um mercado com medo de uma misteriosa névoa que surge após um temporal. Ninguém sabe o que pode haver do lado de fora do local, mas mesmo lá dentro elas não estão protegidas. A ameaça sobrenatural avança e os ânimos se alteram. A discórdia é plantada por uma fanática religiosa que prega que Deus está castigando a humanidade pelos males que ela tem causado ao planeta e insiste que todos devem aceitar o cruel destino. O final é um dos mais chocantes e perturbadores já feitos.

Se você se permitir entrar dentro dessas histórias, com certeza irá viver as mesmas emoções dos personagens e não haverá como escapar da reflexão e repensar o seu modo de vida, tanto com o seu semelhante quanto com o meio ambiente, para garantir um futuro próspero a si mesmo e para as futuras gerações.

2 comentários:

Amanda Aouad disse...

Pois é, concordo que O livro de Eli é o mais fraco dos três, mesmo a mensagem final que você cita achei que se perde em alguns detalhes.

P.S. Retribuindo a visita, gostei daqui tb, virei mais vezes.

Rafael W. disse...

Nossa, eu adorei essa matéria. Muito boa mesmo. E seu blog é ótimo, já estou lhe seguindo, comentarei sempre que puder.

http://cinelupinha.blogspot.com/

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