quarta-feira, 21 de novembro de 2012

ESQUECERAM DE... BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA

Quem nunca ouviu falar que a cultura pode mudar um ser humano e a longo prazo quiçá o mundo? O cinema e a literatura obviamente são dois caminhos prazerosos para isso, mas o efeito positivo da junção dessas duas manifestações artísticas pode ser ainda mais avassalador como nos prova Balzac e a Costureirinha Chinesa (2001), um belo drama com pano de fundo histórico dirigido por Sijie Dai, um chinês radicado na França. O longa é baseado no livro homônimo do próprio cineasta, uma autobiografia retratando o final de sua adolescência quando passou por um processo de reeducação em um povoado escondido entre as montanhas. Saber criticar, opinar e ter uma ampla cultura sempre foram empecilhos aos regimes totalitários. No filme acompanhamos alguns jovens que driblam as adversidades para enriquecerem suas mentes e assim consequentemente tornam-se ameaças às regras governamentais do final dos anos 60 e início da década seguinte.

Nos anos 70, Luo (Chen Kun) e Ma (Liu Ye) são dois jovens que vivem na China comandada por Mao Tsé-Tung. Os dois são encarados como sendo inimigos do povo por seus pais serem médicos e dentistas, considerados burgueses reacionários. Luo e Ma são presos e encaminhados a um campo de reeducação em uma vila isolada no Tibet. Mesmo sem preparo físico, eles são obrigados a realizar tarefas pesadas como forma de aprenderem o que realmente é importante nesta vida segundo dita o governo, ou seja, o trabalho forçado e a obediência à uma hierarquia firmemente estabelecida. No campo eles apenas encontram alívio nas músicas tocadas por Ma e nas histórias narradas por Luo, até que conhecem uma costureirinha (Zhou Xun) por quem ambos se apaixonam. Ela então lhes revela um precioso tesouro: livros considerados subversivos e de autoria de pensadores como Flaubert, Tolstói, Victor Hugo e Balzac, que estão de posse de Quatro Olhos (Wang Hongwei), outro jovem que também está sendo reeducado e está prestes a retornar à cidade. O trio então decide por roubá-los para promoverem suas próprias revoluções pessoais.

Mao Tse Tung governou a China e empreendeu a Revolução Cultural, uma espécie de lavagem cerebral e desumana coletiva. Ser uma pessoa com censo crítico e culta era muito inconveniente para os regimes totalitários que queriam comandar a população, portanto a ignorância do povo era tudo o que precisavam e um trabalho incessante semelhante ao dos tempos da escravidão era a maneira mais eficaz de se conseguir isso. Situações semelhantes assolaram vários países inclusive o Brasil na forma da Ditadura Militar. Quem era contra o governo acabava se manifestando através das artes e da cultura, correndo o risco de sofrer terríveis consequências, assim esses regimes políticos acusavam os intelectuais de serem inimigos do povo. No território chinês a tal revolução que Mao impôs levou ao fechamento das universidades e os jovens eram enviados ao campo para aprenderem os valores que o governo julgava corretos para a construção de uma nação direita.
No filme o processo de superação dos três protagonistas acaba por se refletir na vida daquelas pessoas humildes da aldeia em que viviam, um povo que propagava ideais revolucionários sem mesmo saber o que eles significam. Esses personagens "mais evoluídos" querem descobrir o que o mundo tem a oferecer, mas precisam fazer tudo as escondidas para não sofrerem ainda mais repressão. Nessa espécie de campo de refugiados, onde as pessoas são obrigadas a fazerem serviços pesados sem terem o menor preparo físico muitas vezes, os jovens conseguem entrar em contato com a cultura mundial através dos livros que outro rapaz traz as escondidas. Aí está a grande idéia do roteiro: é uma verdadeira homenagem a literatura e a grandes nomes de pensadores. Vendo por esse contexto, o longa faz um incentivo ao hábito da leitura, mostrando o quanto ela é importante para o crescimento intelectual.

Geralmente os filmes de drama orientais causam impacto pelas espetaculares imagens que mostram belíssimas passagens, figurinos e cenários, mas aliados a um excelente roteiro podem se transformar em obras de importância ímpares. Com fotografia e locações de encher os olhos, esta produção é um belíssimo exemplar de amor e contemplação as artes, porém, mais uma vez a lei do mercado fez valer a sua força. Se não há demanda não há oferta e vice-versa. Por desinteresse do público ou pouco caso das distribuidoras Balzac e a Costureirinha Chinesa é mais um excelente filme esquecido e fora do mercado atual. 

Um comentário:

Guilherme Z. disse...

FILME BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA A VENDA NO MERCADO LIVRE

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